Por Tom Ford, da revista britânica Top Gear
Traduzido e adaptado por Eder Kambara
Ler as especificações do novo Citroën C3 é tão satisfatório quanto ver flores murcharem por sobre o túmulo do seu tão amado bichinho de estimação. Eu sei, porque acabei de fazer isso. Deixe-me compartilhá-las com você. Basicamente, o novo C3 é um pequeno hatchback da Citroën com uma linha de motores de quatro cilindros, que vai desde o 1.1 litro a gasolina de 61 cavalos, passa por um par de 1.4s que produzem 75 ou 95 cavalos, até um 1.6 VTi de 120 hp, roubado do Mini. Os motores a diesel são de 1.4 ou 1.6 litro, e você pode ter 70, 90 ou 110 hp.
A faixa de preços parte das 10.800 libras para a versão básica 1.1 VT, e chegam a 16.200 libras para a versão topo de linha Exclusive, com o motor 1.6 Hdi, de 110 hp. Aí está, já fiz meu trabalho informativo, agora vá e faça algo mais interessante, como prender o dedo numa porta.
Mas espera lá. Pode até ser que não haja uma grande idéia tecnológica, ou que o chassis não seja assim tão bom e esportivo, mas o novo C3 é, de fato, muito bom, quando você se depara com ele pessoalmente. Verdade.
A primeira impressão é que, pelo menos por fora, a Citroën acertou em cheio. O novo C3 é mais artístico do que o anterior, com um estilo parecido com o do C3 Picasso, e menos linhas enfadonhas. Não é surpreendente, mas é limpo e de caráter. Ele faz com que o Polo se pareça bobo, e o Fiesta, um venerador do Focus.
Como seria de se esperar, o carro fica melhor com uma cor clara e com rodas de 17 polegadas. Vá dos azuis cintilantes e dos verdes brilhantes, para os pretos e cinzas nas versões mais espartanas, e o C3 começa a ficar escondido na obscuridade.
Há um equilíbrio entre ser original e estranho. A dianteira foi bem desenhada, tendo até rastros de DS3 e GT nas reentrâncias em cada lado do para-choque. Os faróis têm a meia-luz composta por LEDs, e as lanternas traseiras são pequenos bumerangues que complementam as linhas curvas. Tudo é muito bem detalhado, limpo e coerente. Fazem do C3 antigo parecer antigo. E, se formos mais exigentes, parecer barato.
Há também outros detalhes: parece que o C3 está ficando careca. O novo para-brisa panorâmico invade o teto, e dá a impressão de que o C3 tem uma testa grande. É equipamento de série em todas as versões, exceto na mais barata, e proporciona uma visão muito estranha da dianteira. Além disso, o carro também é esquisito de perfil: a coluna A desce em curva e encontra-se com a parte posterior logo após do capô, parecendo que está quebrada. Porém, no geral, o carro é bem agradável. Redondo. Inofensivo. Alguns o acharão gentilmente esquisito.
O interior não é tão arrojado quanto o exterior, mas, pelo menos, o C3 dá a sensação de solidez e boa montagem. É imperioso dizer que, no lançamento do primeiro C3, a tampa do porta-luvas caiu quando eu a abri e, após ter passado por duas rotatórias, o mostrador digital no alto do console simplesmente pulou pra fora, deixando um buraco.
Mas a Citroën, hoje em dia, faz bons carros, e agora nós temos um painel em forma de T, um console central simples e funcional e muitos detalhes. Os quase ilegíveis mostradores digitais deram lugar a um conjunto analógico, que são bem mais classudos. Muito melhor, tudo flutua suavemente de um lugar para outro, desde o fosco topo do painel, do plástico grafite do console e dos painéis das portas, nada parece estar solto, molenga, perdido. As cores são suaves e discretas, com breves flashes de cromo, para avivar as coisas.
Os assentos são confortáveis, largos e facilmente ajustáveis, e o para-brisa é um encanto. A luz natural entra sem cerimônia na cabine, e o interior fica claro, mesmo em dias nublados. A única coisa que desfaz a ilusão de estarmos em um conversível, é a visão do retrovisor, que fica ilhado no meio de tanto vidro. Num carro compacto, a sensação de espaço é sempre bem-vinda. O carro não é gigante na parte de trás, embora o espaço para as pernas tenha crescido em 30 mm, entretanto, o grande para-brisa deixa os assentos traseiros menos opressores do que em muitos outros compactos do mercado.
Dirigi-lo proporciona mais do que o de costume. O carro é silenciosamente bom, melhorado, bem projetado. Testamos a versão 1.6 HDi de 90 hp e transmissão manual de cinco marchas, e não há nada de errado com eles. Forte e ágil, mesmo em baixas rotações, devido ao bom torque de 158 lb/ft, excepcionalmente silencioso, fácil de usar. Ele pode até não ser o mais vívido dos motores, mas certamente você não se sentirá impotente, mesmo com aceleração de 0 a 100 km/h em 11 segundos, e velocidade máxima de 111 mph.
O câmbio e a embreagem são leves, calmos e fáceis, mas um tanto imprecisos – nada que vá te incomodar tanto. A direção é apurada e o rodar é muito bom. As ruas no entorno de Roma, local em que testamos o carro, não são tapetes de asfalto, e o C3 permaneceu sólido e quieto por sobre os paralelepípedos, buracos e imperfeições das extremidades.
Você não ficará surpreso em ouvir que o C3 não é muito esportivo e reativo, pois uma saída leve de frente será a única coisa que conseguirá provocar no carro, caso começar a ficar mais agitado ao volante. Mas o pequeno Citroën é perfeito em quase todas as situações. Divertido? Não, não mesmo. Mas a direção é boa, os freios, idem, e ele lida com as lombadas como ninguém. Está mais do que bom. Isso quer dizer que, no todo, tem-se um pequeno Citroën de boa aparência, faz tudo muito bem e desnecessita de ulteriores explicações ou desculpas; este é um ótimo carro, bastante melhorado em relação ao C3 anterior, e é exatamente aquilo que a marca francesa precisa.
Mas isso soa um pouco sarcástico, não? Eu não acredito que o departamento de marketing da Citroën irá criar o seguinte slogan: “Citröen: não é mais a bosta que costumava ser”. Mas o C3 precisa atrair os clientes conservadores que acharam o conceito DS3 muito “pra frentex” demais. O Ford Fiesta é, indubitavelmente, o melhor carro para se dirigir, e o VW Polo, o mais austero e conservador, mas há espaço no mercado para o C3, onde aqueles dois não conseguiram conquistar clientes.Apesar da falta de um bom argumento de vendas para o C3, ele parece ter criado um nicho de mercado só para si. Não é um carro voltado para o motorista, mas, se estiver procurando por algo que supra o básico, e que tenha um pouco de caráter distinto, o C3 lhe coloca um pequeno sorriso de satisfação na cara.














Últimos Comentários